Prevenir Dói Menos

Out11

A primeira lembrança que se tem da mamografia é pesarosa e relacionada a incômodo

Assim como o problema ao qual ela se dedica a estudar, provavelmente a primeira lembrança que se tem da mamografia é pesarosa e relacionada a incômodo. Frases como: “dói muito”, “aperta demais”, “pior exame do mundo” e outras, ecoam dia a dia na sala de consulta

Na verdade, a mamografia é um exame desconfortável, e é fácil explicar alguns porquês. Sempre existe pressão exercida nas mamas pelo aparelho (que é calibrado e monitorizado por um técnico para que não seja exagerada, mas, claro, depende da sensibilidade de cada paciente, do dia do ciclo menstrual em que é feita e do estado emocional na ocasião). Há também o fato de se estar parcialmente exposta, a temperatura da sala que é um pouco fria, e, o que imagino ser o motivo mais importante, o medo do diagnóstico de uma alteração capaz de mudar a vida num piscar de olhos: “até agora não tinha nenhum problema de saúde, agora tenho câncer”.

Desde os primeiros estudos utilizando-se radiografia para estudar mamas de pacientes com câncer, no início do século XX, foi possível notar que a doença causa alterações visíveis e típicas. Depois de praticamente um século de acúmulo de informações, existem características bem conhecidas que predizem se determinada lesão tem risco de ser maligna e outras que permitem dizer o contrário, que as lesões são tipicamente benignas. No entanto, ainda permanecem questões nem sempre unânimes: qual a melhor idade para o início da realização das mamografias de rotina? Qual o intervalo ideal entre cada exame? A mamografia causa mal? O que acontece se a mamografia não for feita?

Sem querer discursar exageradamente sobre o assunto, vamos à primeira dúvida: idade.

O Ministério da Saúde recomenda, assim como acontece em alguns outros países, que as mulheres comecem a fazer mamografia ao completar 50 anos, e que seja repetida a cada 2 anos até que completem  69 anos de idade. Porém, a Sociedade Brasileira de Mastologia e o Colégio Brasileiro de Radiologia recomendam que a mamografia seja feita anualmente a partir dos 40 anos. Essa diferença existe por causa de 2 fatores principais:

1) Após os 50 anos a maioria das mulheres passa por um processo chamado lipossubstituição, o que em linguagem mais fácil significa: a mama passa a ter mais gordura e uma proporção menor de tecido glandular. Isso torna a mama mais transparente na mamografia e facilita a detecção de alterações mínimas (aumenta a sensibilidade do exame). Antes dos 50 anos este processo ainda não ocorreu de maneira importante, de modo que a maior densidade mamária pode dificultar identificação de lesões muito pequenas. No entanto, outras ferramentas podem ser utilizadas para aumentar a eficiência do rastreamento, as mais conhecidas: ultrassonografia e ressonância das mamas (que devem ser solicitadas pelo médico nos casos em que a mamografia foi insuficiente).

2) A incidência de câncer de mama antes dos 50 anos é menor (menos de 20% dos tumores de mama atingem mulheres nessa faixa etária). Isso significa que quando se rastreia essa população mais jovem, a expectativa é de se encontrar menos casos da doença. Portanto, o custo de se implantar uma política de rastreamento nessa situação é alto e, teoricamente, menos útil. Porém, sabemos que se realizada a partir dos 40 anos, anualmente, é possível prevenir mortes por câncer de mama, um número menor do que entre 50 e 69 anos, mas que não impossibilita o rastreamento, e é um número representativo.

Quanto aos malefícios da mamografia, sabemos que a dose de radiação não é suficiente para provocar mortes por câncer de mama, desde que realizada na periodização estabelecida. A informação de que ela pode estar envolvida na causa de outros tumores (particularmente o câncer de tireóide, notícia que causou rumor nos meios de comunicação) é falsa e já foi oficialmente desmentida pela própria Sociedade Brasileira de Mastologia nas mídias digitais

Importa ressaltar que nem todo câncer de mama é diretamente responsável pela morte da paciente, e que o rastreamento mamográfico identifica também diversas alterações não malignas, muitas vezes desencadeando grande número de intervenções médicas (que poderiam ser evitadas), com enormes custos financeiros (gasto com exames, biópsias, faltas ao trabalho) e emocionais (medo e angústia pela espera de resultados). A isso damos o nome de sobrediagnóstico (derivado do inglês overdiagnosis), ou seja, trata-se demais doenças que nem deveriam ser diagnosticadas porque não trariam consequências graves, ou tratam-se cânceres que teriam desenvolvimento muito lento e não seriam os responsáveis diretos pela morte das paciente (sobretratamento ou overtreatment). Não cabe a mim, de maneira nenhuma, ignorar esses custos, pois eles existem. Mas, com os recursos tecnológicos que atualmente estão disponíveis, ainda não somos capazes de prever, com certeza, todos os casos que terão evolução desfavorável, muito menos julgar quais não precisam ser tratados. Sendo assim, ainda não podemos dizer a uma paciente que não é necessário se submeter a tratamento para determinado câncer de mama, e a busca pelo diagnóstico precoce ainda é nossa maior arma.

Ainda é preciso saber que menos de 30% das brasileiras em idade de rastreamento são efetivamente submetidas à mamografia, quando o ideal proposto, para que houvesse a maior diminuição da mortalidade por câncer de mama, seria um alcance de 70%. Ou seja, no início do século XXI ainda engatinhamos para oferecer o mínimo, não creio ser uma boa ideia nos balizar pelos excessos.

Programe sua consulta. Situações não citadas neste texto, como história familiar de câncer, composição do tecido mamário, histórico de algumas doenças, programação de gravidez, cirurgias estéticas nas mamas, uso de terapias hormonais, podem afetar a idade e os métodos de início do rastreamento. É  importante personalizar cada avaliação, conhecer benefícios e riscos para tomar a decisão mais consciente possível, portanto, programe sua consulta!

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